sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Adeus sem dó


Meu Deus,
seu adeus,
tão risonho,
tão medonho,
tão Medeiros,
foi tão certeiro
que meu ego nem pôde discordar, estou certa.
Se queres partir, Martha...
para o raio que o parta!
Anda, raios, faça as malas,
leve suas palavras falhas
e vá para onde meu coração deve estar: Na merda.
--
Iana Carolina

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Porquês


O porquê da vida eu já nem sei.
E minha dúvida vem na frente,
separada e sem acento,
com assento, mas sem descanso,
que eu quase não alcanço
um momento um tanto manso
pra amansar a minha fera.

Por que será?

Às vezes até no final
minha dúvida dá sinal
e vem acentuada,
toda junta e misturada,
num misto de não sei o quê
que me faz reavivar
os rumores dos rancores que,
feito tambores,
me batucam um "o que será?"
até doer.

Será por quê?

Isso só acontece porque eu não sei explicar.
É tudo culpa do substantivo
que se faz subjetivo
e esconde o objetivo
pra eu nunca encontrar.

Ah, minha menina, cajuína cristalina,
cristaliza essa rotina
em que vive minha retina
de só, sem sol, chover.

Deixa eu ver, me explica:
Existirmos, a que será que se destina?
Existirmos ... se destina a não viver?

Iana Carolina

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Agramaticando com os manos


Passarinho


I
O detalhe menos importante do passarinho
é ter duas patas.
Mas isso não empata.
Ele também tem duas asas
para sair do chão.

Iana Carolina

II
E quando em seu vôo levanta,
deixa o diminutivo lá em baixo,
faz no céu malabarismo com as nuvens,
lembra a flor do beijar,
lembra ao bem que te vi.
Brinca com o sol e com o ar da iris,
vivendo como um amor
que volta sempre com o passarinho,
que pinta sempre com o arcoíris.

Robson Crasso

Iana Carolina e Robson Crasso, brincando de poesia dupla.

Agramaticando com os manos


Quentura

Quentura, que nem sempre rima com o amor do bobo,
é essa coisa que dura e rima mesmo com calor e fogo.
Se a letra não dá, paciência,
pois ela é a essência do lado de cá.
E para a essência não basta a rima.
A coisa é fina: para a essência, tem que esquentar.
Mas se achegue, com rima, sem rima, na rede,
e aproveita que esse quente não é imortal.
Se aconchegue, menina, na sede,
que esse bem nunca fez mal
(tem uma coisinha ou outra, mas deixa).
Quem chega gosta, quem não chega se queixa.
Se não puder um beijo na boca,
se não puder essa saudade louca,
se não puder muitas dessas coisas poucas,
o vapor do torpor da vida simplesmente nos deixa.

Iana Carolina e Yuri Brito, brincando de poesia em dupla.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tudo passa?


Eu sempre acreditei que o que passa é coisa ruim,
porque coisa boa é tão boa de preguiça
que prefere ficar sem nenhuma pressa.
Além de tudo, se o mal se faz e a coisa boa passa,
é para que um bem a mais se faça:
faca para afiar as pontas, para que as pessoas fiquem prontas
para sentir o novo entrar.

No mais, basta tentar ir se ajeitando:
basta arrumar os males e perceber que há malas que - malas! - querem vir de trem.
Daí passa um bem aqui, ali passa mal alguém, outra boa coisa vem,
e no final dá no mesmo: fica tudo bom, fica tudo bem.

Mas se é verdade que tudo passa,
que toda asa bate ritmada e sai voando pra outro lugar,
é verdade também que passa tudo,
até essa coisa besta de tudo passar.

Seja como for, vem, amor,
que se tudo passa,
se passa páscoa, feriado e domingo,
se fulano ora acordado, ora dormindo,
se por ano passa passarinho que não acaba mais,
se pelo caminho passam coisas que não voltam atrás,
traz seu sorriso, que de outro jeito eu não consigo.
Se tudo passa, já tá passando a hora,
então responde, eu espero, no tempo de sua demora:
... Quer passar junto comigo?

Iana Carolina

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Há males que vêm, meu bem.



Ainda não conheci uma maneira melhor e pior para aprender, senão vivendo.

Qualquer cicatriz - em baixo, alto ou invisível-relevo - nos faz relevar coisinhas que, de um jeito ou de outro, nos revelarão coisinhas.

Observar, com os dedos, o relevo dá a sensação de revê-lo. É como um estímulo já condicionado. Uma caixa de Skinner. Mas é totalmente possível fugir desse esquema meio mecanicista. E é possivelmente provável desequilibrar e tropeçar nas mesmas pedras-no-meio-do-caminho também.

É. Isso acontece, e me ardem os joelhos. Mergulho, e me arde o mercúrio no coração.

Seu moço, eu nunca passei por uma estrada com apenas um buraco.
Mas toda estrada que eu passei chegou em algum lugar.

Depois de sentir o peso pesando pra baixo de vez, é possível bater no muro, tomar um murro, buscar um rumo e, enfim, ser... e estar... e ficar... bem.
Há males que vêm.


Iana Carolina

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rebeldia do dia



Essa coisa toda de querer entender todas as coisas não me vale muito.
Mas sempre vem essa tal de ciência, empinando o nariz, com cara de presunçosa, se achando a tal.
Tal que se aplica, insiste, explica, complica e implica.
É uma desgraça tirar, sempre, a graça da imaginação.
Imagina a ação disso!

Ah, mas eu tenho uma implicância com essa mania de explicância barata que não é brincadeira!
E me lasco, me confundo, me afundo, nado, jogo pra lá, me contradigo, digo o contra, encontro o dito, fico mal visto, avisto o mar, visito meu amor, visto-me de amor e vivo num mundo muito mais bonito, porque vivo.

E tudo bem mesmo, porque continuo achando que a chuva pode ser um festival gotífero de bungee jumping ou um suicídio altruísta (talvez até egotista), ou uma disputa de xixi, ou a tristeza de uma nuvem, ou uma suadeira desgramada.

Afinal de contas, que diabos é H2O?!
Ooora, bolas!
É cada uma que me inventam, viu?
Hum!

Iana Carolina